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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Guardião Gato Preto... Exú é mojubá!

Para o Guardião Gato Preto, Guerreiro, Mestre, Amigo!

Envolto na penumbra da noite,
Chega firme como um guerreiro!
Solta uma forte gargalhada,
Que ecoa pelo terreiro!
Vem em nome do Coroado!
Ele traz uma missão:
Ajudar a humanidade
A aceitar a verdade do coração!
Conhece o poder da alma humana
E mostra-o não só com magia
Mas pelo poder das palavras
Sempre com arte e mestria!
Para vencer qualquer demanda,
Para ajudar um amigo,
Ele desce até ao inferno,
Enfrenta qualquer perigo!
Sete vidas tem um gato,
Sete forças tem a Umbanda
Sete vezes sete são seus mistérios
Ou os caminhos por onde anda!
O seu nome é S.Gato Preto!
Aparece a qualquer hora, em qualquer lugar!
Porque na vida tudo é possível,
Só basta a gente acreditar!





Mary Nogueira

quarta-feira, 18 de abril de 2012

ORAÇÃO A OGUM


ORAÇÃO A OGUM


Salvé meu Pai Ogum!

Orixá Guerreiro, Senhor da Ordem, da Lei, dos Caminhos! Senhor da Espada!

Que eu seja sempre digno de receber a sua bênção, meu Pai,

Para que nenhum caminho se feche em minha vida!

Para que cada batalha seja uma conquista e cada conquista uma vitória!

Que a sua Energia abra meu coração e me traga discernimento

Para que eu possa agir de forma correta,

E tomar as decisões certas em minha vida

Percorrendo os caminhos da Verdade, do Amor e da Fé!

Que a sua Espada, meu Pai Ogum,

me ajude a derrubar todos os dragões e demandas em minha vida,

Para que eu possa continuar a lutar, tal qual um Guerreiro de Luz,

A seu lado, pelos oprimidos, pelos doentes, pelo próximo!

Que o seu Escudo, meu Pai, me ampare nos momentos mais difíceis,

Não me deixando abater pelas tristezas e amarguras da vida!

Irradie sobre mim a sua Luz,

Para que eu possa reformar o meu interior,

Transformando o meu egoísmo em altruísmo,

A minha vaidade em humildade,

Tornando-me assim numa pessoa mais justa, verdadeira e generosa!

Obrigado meu Pai Ogum, pelo sangue que corre em minhas veias,

Que pulsa, que vibra em mim e me faz viver!

Faça cumprir-se a Lei!

Salvé Meu Pai Ogum! Ogunhê!


Mary Nogueira

Atupo - Templo de Umbanda Pai Oxalá



sexta-feira, 30 de março de 2012

Respeito e Disciplina na Umbanda


Existem algumas atitudes que além de demonstrarem nosso respeito, falam mais que mil palavras não é mesmo?

Pois bem, acredito que quando os médiuns umbandistas entenderem essa colocação e começarem a agir prestando atenção no respeito e no exemplo que estão demonstrando e promovendo, a Umbanda será vista pela sociedade de forma muito mais elevada do que acontece hoje em dia.

É, acredito realmente que Posturas, Atitudes e Conhecimento são fundamentais para alcançarmos uma Umbanda mais aceita, mais respeitada e mais séria.

O fato é que essas posturas e atitudes estão vinculadas ao modo que os médiuns se comportam fora e dentro do terreiro, já o conhecimento está atrelado à capacidade de responder pela e sobre a Umbanda.

No entanto, percebo que muitos médiuns não têm postura, atitude e muito menos conhecimento condizente com a Umbanda e com todos seus fundamentos e tradição, posso citar como exemplo, a falta de conhecimento que muitos médiuns têm sobre o “simples” ato de ENTRAR NO TERREIRO.

Sei que parece bobo dar esse exemplo, afinal existem “coisas” tão mais importantes na Umbanda, mas realmente acredito que todos os médiuns umbandistas devem ser respeitosos, devem ter o conhecimento e estarem conscientes do que é um Terreiro, dos fundamentos que envolvem “entrar em um Terreiro”, das Forças assentadas e do trabalho realizado dentro daquele espaço mágico, portanto, é seu dever, sempre que atravessarem a fronteira do profano para o Sagrado, ou seja, sempre que entrarem em um Terreiro, fazerem as devidas saudações sabendo o que cada ato significa, mesmo porque, eles nunca saberão quando e por quem serão questionados sobre determinados movimentos e atitudes que normalmente se faz ao entrar em um terreiro.

Mesmo sabendo que cada terreiro tem sua forma específica de realizar suas saudações, quero pontuar algumas atitudes, que espero, faça a diferença neste ato que particularmente entendo ser de suma importância, uma atitude de respeito às Forças Divinas que sustentam aquele Terreiro e o próprio médium, além de exprimir uma postura condizente à Umbanda e seus Poderes Divinos.

Em primeiro lugar, o médium ao adentrar no terreiro deve Saudar as Forças dos Srs. Exus/Guardiões e das Sras. Pombagiras/Guardiãs assentadas na Tronqueira e para tanto, deve parar por alguns minutos de frente à tronqueira e com a cabeça baixa, agradecer a permissão de sua entrada naquela Casa Santa. Caso seja necessário, nesse momento também se pede para os espíritos negativos, que por ventura estão perturbando o equilíbrio do médium, sejam recolhidos e encaminhados pela Força da Esquerda com a permissão de Ogum, consequentemente o agradecimento e os momentos de permanência de frente à tronqueira serão maiores. Portanto deve-se sempre agradecer a guarda, a força e a proteção que ELES proporcionam em nossas vidas e ao terreiro.

Normalmente e dependendo do terreiro, durante esses momentos de agradecimento bate-se palmas três vezes e/ou toca-se no chão saudando o “embaixo” também três vezes pronunciando sua saudação que é “Laroye Exu. Exu é Mojubá!”. Segundo a ‘Enciclopédia brasileira da Diáspora Africana’ de Nei Lopes, Laroye significa: interjeição de saudação a Exu, um dos nomes de Exu e Mojubá significa: fórmula de saudação e reverência, dirigidas pelos fiéis aos orixás. Do ioruba ‘mo juba’, “eu (te) reconheço como superior”.

Em um segundo momento deve-se Saudar o Congá e o Altar, locais e pontos Sagrados que devem ser respeitados, afinal, é entre tantas coisas, onde se realizam as grandes trocas de energias, é onde todas as Irradiações Divinas estão concentradas e consequentemente são projetadas a todos, principalmente sobre aqueles que reconhecem e aceitam esse Poder Divino.

Para saudar o Congá deve-se fazer três vezes o sinal da cruz no chão antes mesmo de entrar nesse espaço. Fazendo esse sinal, abre-se um portal divino de amorosidade e fé seguindo o ensinamento de Jesus no momento de sua crucificação. Fazendo três vezes se afirma, reafirma e determina esse ato. Fazendo no chão “acordar” a força da terra e toda sua potência energética transmutadora, transformadora, curadora, sábia e ancestral.

Já o ato de “Bater Cabeça” não deve ser ou se tornar um ‘costume’ ou uma ‘repetição’, mas uma atitude de reverência, entrega, devoção e adoração diante dos e pelos Sagrados Orixás. É nessa hora que comungamos com Oxalá, Oxum, Oxóssi, Xangô, Ogum, Obaluayê, Iemanjá e com todos os Guias Espirituais, é nessa hora que pedimos que nos ajudem a mantermos nossos olhos fechados para o ciúme, para o egoísmo e para a inveja, assim como nossos ouvidos fechados para a intriga e para a curiosidade que fortifica a fofoca.

É nessa hora que pedimos que nos ajudem a manter nossos corações abertos para o amor, para a fé, para a compaixão e para a esperança, e que nossa mente esteja sempre aberta para o discernimento, para a sabedoria e para a paciência. Que nos ajudem a manter nosso espírito purificado e iluminado para que assim possamos servir de “simples” instrumentos de Deus, da Lei e da Justiça Divina. É o momento de agradecer, agradecer e agradecer por essa oportunidade única e excelsa que temos por estar diante do Poder Divino, diante dos Orixás.

Além disso, é o momento de absorver as potências energéticas da Terra pedindo para ela transmutar todos nossos pensamentos e sentimentos negativos, além de nos envolver com a Sabedoria Sagrada de nossa ancestralidade que em tempos remotos foi levada a terra.

E por fim, e não menos importante, o médium deve Saudar, ou melhor, Tomar a Benção de seu Pai ou Mãe Espiritual.

Quando isso ocorre, o “filho” está reconhecendo seu Pai Espiritual como o detentor dos conhecimentos da Lei de Umbanda e como seu orientador, portanto é ele que o conduzirá, o sustentará e o protegerá dentro da doutrina religiosa umbandista e diante da própria vida.

“Tomar a Benção” é sim um procedimento de reconhecimento e de respeito à Hierarquia, mais do que isso, é um ato de entrega, respeito e confiança, portanto aquele que “dá a benção” tem que estar consciente de suas responsabilidades, assim como deve rever e reavaliar seus atos constantemente para que eles sejam e estejam idôneos à sua posição. “Tomar a Benção” ou “Dar a Benção” é coisa séria e tem fundamento, portanto é preciso ter Atitude, Respeito e Conhecimento.

Aproveitem um pouco daquele “olhar de poeta” e percebam: quando o médium toma entre suas mãos a mão de seu Pai Espiritual e a beija respeitosamente levando-a até a sua testa e beijando-a novamente, ele está saudando, determinando e reafirmando sua fé acima de tudo a Trindade Divina.

Percebam que são três atos, beijar a mão, colocar na testa e beijar novamente, o que significa o respeito à Trindade, além disso, ao beijar pela primeira vez o médium está afirmando que aquela mão tem “poder”, tem “conhecimento” e tem “autoridade”; ao colocar essa mão na testa o médium está afirmando que somente aquela mão tem a permissão de tocar em sua coroa – afirmativa que magneticamente e vibratoriamente dá proteção àquele médium pois dificulta a ação de espíritos negativos que continuamente tentam “dominar” o mental do mesmo – automaticamente o Pai silenciosamente “pede” para que todo seu Saber seja absorvido por aquele ‘filho’, afinal sem conhecimento não há evolução, e intimamente, ao tocar com as mãos na testa de seu filho, o Pai diz: “eu te dou o meu Saber meu filho, receba e evolua em espírito”; por fim, ao beijar novamente a mão do Pai espiritual, o médium está confirmando o desejo de que aquelas mãos preparadas o conduza no trabalho espiritual e no encontro aos Orixás, por isso que ao pedir a benção o Pai Espiritual responde “Seja Oxalá quem lhe abençoe meu filho”. Importante perceber que com essa afirmativa o Pai já está proporcionando o encontro do médium com os Orixás. Basta ter Fé, Atitude, Respeito e Conhecimento.

É, a Umbanda tem fundamento sim, e é nosso dever e nossa obrigação saber “preparar”.

É nosso dever e nossa obrigação saber se comportar, ensinar e respeitar. É nosso dever e nossa obrigação dar bons exemplos e responder por nossos atos e pela Umbanda, mesmo porque, na Umbanda NADA É SIMPLES, mas tudo é de uma simplicidade impar. Fiquemos atentos!!!

texto: autor desconhecido/recolhido na net

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Mensagens a todos os Filhos e Guerreiros da Paz de Umbanda


Mensagens a todos os Filhos e Guerreiros da Paz de Umbanda

“O guerreiro da luz raramente sabe o resultado de uma batalha quando esta acaba. O movimento da luta gerou muita energia a sua volta, e existe um momento onde tanto a vitória como a derrota ainda são possíveis. O tempo irá dizer quem venceu ou perdeu; mas ele sabe que, a partir daquele momento, não pode fazer mais nada: o destino daquela luta esta nas mãos de Deus. Nestes momentos o guerreiro da luz não fica preocupado com os resultados. Examina seu coração e pergunta: “COMBATI O BOM COMBATE?” Se a resposta é positiva, ele descansa. Se a resposta é negativa, ele pega a sua espada e começa a treinar de novo.”

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"Realmente, você já passou", responde o coração. "Mas nunca ultrapassou." O guerreiro então compreende que as experiências repetidas tem uma única finalidade: ensinar-lhe o que ainda não aprendeu. Ele passa a procurar uma solução diferente para cada luta repetida até que encontra a maneira de vencê-la."

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"Somos responsáveis por tudo que acontece neste mundo. Somos os Guerreiros da Luz. Com a força do nosso amor, de nossa vontade, podemos mudar o nosso destino, e o destino de muita gente."
Paulo Coelho

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

"Mar Português" por Fernanda Moreira

MAR PORTUGUÊS


Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.


Fernando Pessoa, in Mensagem


No passado dia 25.06.2011, realizou-se aquela que já começa a ser uma tradição da ATUPO: a homenagem ao Povo do Mar, concretamente Gira de Marinheiros, sob o olhar benevolente da Grande Mãe, Yemanjá!


A deslocação à praia foi massiva e, ao contrário do que aconteceu no ano passado, o tempo estava quente… tão quente… que a areia ameaçava arrancar-nos a pele da planta dos pés.


O ambiente estava fantástico! O céu estava resplandecente de azul e a água do mar era um lenitivo para as nossas aflições, i.e., o calor escaldante, num claro simbolismo entre as dores da nossa alma e o amparo que a Mãe Yemanjá nos dá!


O pescador/marinheiro faz parte não só do imaginário português, mas também da nossa história. A navegação aventureira, na procura de Novos Mundos há muito que se foi, mas a tradição e a ligação ao mar manteve-se até às presentes gerações até porque, de acordo com o grande poeta, “ainda falta cumprir Portugal”.


O certo é que, de todas as histórias que se contam, nasceu um “tipo” psicológico ou arquétipo do marujo: brigão, truculento, alegre e dado a celebrações. O Homem cuja vida dura, não o impedia de levar a palavra saudade a todo o mundo, não deixando por isso de celebrar o maior dom que Deus nos deu – A VIDA.


Foi um sucesso anunciado!

Com a experiência adquirida nos anos anteriores pudemos melhorar um pouco esta homenagem e dedicar-nos exclusivamente a celebrar a alegria de bem viver as nossas existências de acordo com a visão dos Marujos.


Estes chegaram alegremente, depois da verificação dos caminhos por Ogum e da bênção concedida por Yemanjá.


No seu estilo vigoroso e alegre, muitas vezes provocador, deram a volta à assistência, falaram com todos os devotos – e foram tantos os que se fizeram presentes – aconselharam, deram passes, fizeram descarregos e também doutrinaram.


O sotaque é de terras de Vera Cruz, excepção feita apenas ao caso do Sr. Agostinho, “Português dos 4 costados”, ali dos lados de Peniche e que nas palavras do Prof. Ismael Pordeus Jr. no seu livro “Portugal em Transe” prova “a concretização da transnacionalização do panteão” e “deixa antever um panteão na Umbanda de Portugal”


A tarde foi passando amena, quase sem se fazer sentir. Ouviam-se murmúrios aqui, choros mais ao fundo, gargalhadas em todo o lado.


Deixamos de prestar atenção ao calor sufocante. O calor humano, a Fé e a Alegria por nos encontrarmos, mais uma vez, a fazer esta homenagem juntamente com esta mole humana que continua a aumentar, alterou a nossa percepção do tempo. Quando nos apercebemos, tinha chegado o momento de verdadeiramente honrar Yemanjá e de formalmente fazermos a entrega das centenas de rosas brancas que entre todos nós, corrente e assistência, conseguimos reunir.


Fez-se a corrente mais longa de todas as que já vimos estender-se pela extensão total do areal. As cores dourado da areia e branca dos trajes em perfeita harmonia com o azul do céu e os tons esverdeados do mar, todos parte de um caleidoscópio colorido, iluminado pelo sol que nos honrava com a sua presença radiosa.

Numa tal extensão de corrente, os cantos tornaram-se entrecortados por ritmos diversos, a ponto de uma ponta cantar um verso e a ponta oposta cantar um outro. Todos entoavam os mesmos cânticos com emoção e entrega total ao momento em jeito de compensação.


Aqui impõe-se uma comparação. No ano anterior, aproveitando a transformação do dia invernoso em dia estival, o Sr. Martim fez questão de realçar o quanto o Tempo é um mestre sábio que muito tem para nos ensinar. Falou de perseverança; estabeleceu um paralelo entre o tempo e a vida e concluiu dizendo que “na vida acontece como com o tempo: quem fica até ao fim, quem persiste sobre as contrariedades da vida sem desistir, no final é recompensado com a bonança, com um dia claro, um céu limpo e com uma brisa ligeira.


Este ano complementou a mensagem! Não se fez “o maior círculo/corrente de Umbanda alguma vez feito em Portugal” como no ano passado, antes se organizaram os participantes em 4 círculos concêntricos, como que numa mandala humana representativa dos diversos níveis de evolução, pelos quais os seres humanos têm de passar até atingir um nível de consciência que se harmonize com a obra divina. O Sr. Martim Pescador, aproveitou para realçar que esse número não era uma mera coincidência, porque o 4 representa a família, a união, numa referência à máxima da “união faz a força” e da importância da Família, em sentido amplo, para o fortalecimento do nosso ser e para o nosso equilíbrio, bem como para o equilíbrio do Todo.


Terminou-se esta homenagem com o Ponto “Eu sou o sereno da noite” cantado a uma só voz e a plenos pulmões.


Tal como as caravelas quinhentistas chegaram bem longe, diz quem ouviu que este canto se propagou nitidamente ao longo da praia, levando ainda mais longe o convite dos marujos: “Canta comigo agora / esquece a tristeza e vamos cantar / pois quem canta seus males espanta / deixando as tristezas / a felicidade começa a chegar!”


Fernanda Moreira

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

OS ELEMENTOS - parte1




OS ELEMENTOS

O estudo das forças presentes (e ocultas) na natureza, presentes nos quatro elementos e seus
elementais, é recorrente em grande parte das grandes culturas, tanto Ocidentais, como Orientais. É também comum o facto de existir uma base teosófica no estudo dos quatro elementos básicos da natureza: o Ar, a Terra, a Água, e o Fogo.
Esta seleção, de certa forma natural, refere-se também à condição humana e à necessidade que temos de todos e cada um desses elementos para poder sobreviver.
A origem da Teoria dos Quatro Elementos julga-se ter tido início na Grécia Antiga, entre os filósofos pré-socráticos, envoltos em discussões que procuravam esclarecer a origem material de todas as coisas, atribuindo a determinado Elemento uma determinada particularidade geradora ou causadora de algo, na época, inexplicável. Estas dissertações deram origem a várias obras cuja expressão – literária, plástica, filosófica, científica e religiosa – perdura até aos dias de hoje.
O mais provável, no entanto, é que a origem desta Teoria tenha vindo do Oriente, adaptada do que hoje conhecemos como a Teoria dos Cinco Elementos, originária da China, sendo considerados, mais do que elementos, formas de transmutação da matéria/energia, a partir de um ciclo natural da transformação dos vários elementos – madeira, fogo, terra, metal, e água.
Também na Índia se vê a aplicação da figura dos Elementos (Éter, Fogo, Água, Ar e Terra) que entram em partes equilibradas na composição da matéria. A medicina ayurvédica, disciplina milenar, ganhou forma no pressuposto do trabalho na procura do equilíbrio entre os vários “humores”, plasmados nas forças da natureza.
Não é, seguramente, só um conceito esotérico, mas também a base de formas terapêuticas muito antigas, que já promoviam o equilíbrio energético e espiritual. O princípio dos Cinco Elementos é
amplamente usado na medicina tradicional chinesa, classificando na fitoterapia ervas específicas relacionadas com um desses elementos, em conformidade com as ações que promovem em determinada doença, no uso dos protocolos da acupuntura, e até em disciplinas que promovem o bem-estar como o Tai-chi-chuan e o Chi-Kung.
As descrições Renascentistas, no entanto, sugerem que o Ocidente também admitia a Teoria dos Elementos como forças subtis que se manifestariam através de transformações recíprocas. É o que se depreende de alguns dos textos clássicos, cuja forma de ver os elementos pressupõe uma certa ligação entre a astrologia e a alquimia, que ocorria naquela época, e que durante séculos subsistiu, dando lugar, mais tarde, à química.
O entendimento filosófico pós-socrático veio trazer um “Quinto Elemento”, que os gregos chamaram de “quintessência”. Seria o elemento "perfeito" que somente existiria no plano cósmico, formador do Universo. O entendimento mais consensual prende-se com a simbologia do Éter, representando a negação lógica do vácuo, e, assim, a correspondência com o Divino presente nos próprios Elementos da Natureza.
Numa breveanálise sobre cada um dos elementos, tendo por base documentos diversos elaborados ao longo dos últimos anos, pode fazer-se uma síntese em sequência algo ordenada
de tal forma que possa classificar, da melhor maneira possível, a natureza dos elementos de acordo com uma ideologia espiritualista mais abrangente. Assim, poderemos obter uma visão mais ampla e maior compreensão dos processos criativos com eles relacionados, nas suas diversas fases e transmutações.
AR
O ar é considerado como um símbolo ou matéria sagrada na maioria das religiões, além da Umbanda, incluindo o Cristianismo e chegando mesmo ao Hinduísmo e à Wicca.
Grande parte dos rituais religiosos são realizados na presença de um símbolo deste elemento, seja em forma de incenso (embora este represente também outros elementos), ou simplesmente pelas invocações efetuadas de forma oral.
Em algumas religiões neopagãs, como é o caso do Druidismo, da Wicca, que por si são tendencialmente ligadas à Natureza, também existe a crença na existência dos Elementos presentes no Universo.
No Paganismo, o ar foi o terceiro elemento que se formou da “quitessência”, ou Akasha, sendo considerado um elemento intermediário entre o princípio do fogo e o da água, o que, de resto, acontece de forma análoga com os outros Elementos.
A partir deste conceito, surgem os Elementais, nome esotérico dado aos espíritos existentes na natureza, e, como tal, também considerados como sagrados dentro da Umbanda. Entre os elementais do ar que, segundo a crença pagã, seriam capazes de controlar o Ar e o representar, estão os silfos, as sílfides e as fadas, entre outros.
ÁGUA
De igual forma, a água é considerada como sagrada na maioria das religiões, além da Umbanda. O Cristianismo, o Judaísmo, o Islamismo, o Xintoísmo, o Xamanismo e outros, fazem amplo uso deste Elemento nas mais variadas ritualísticas. Pela sua presença em Templos por meio de recipientes como taças, pias ou simplesmente copos, ou, na sua total magnitude, representados por um rio, lago ou mar, quando a liturgia é celebrada na natureza, a água é possuidora de mistérios que a fazem ser parte integrante do culto de praticamente todas as crenças e religiões. De entre os elementais da água capazes de controlar o elemento água e o representar, encontramos as descrições esotéricas das ondinas, sereias e das hidras, entre outros seres que tanto abundam na nossa expressão literária e que, outrora, tantos receios trouxeram a quem se sentisse próximo a eles.

TERRA
Por si só, o nome Terra deixa implícita a importância deste elemento sagrado em praticamente todas as religiões e cultos pagãos. Segundo estes últimos, o elemento Terra foi o último dos elementos a ser formado, pois pela sua principal caraterística, a solidificação, ela integra em si o fogo, a água e o ar.
Foi essa característica, segundo a crença pagã, que conferiu uma forma concreta aos outros três elementos. Foi também a partir desse momento que a manifestação dos restantes Elementos ganhou força na teoria da transmutação da Terra, e, por consequência, da transmutação humana, e que as Leis da Natureza ganharam forma, tempo e espaço.
Os Elementais responsáveis pela sua representação e manipulação são vários e de variadas formas e expressões: os gnomos, os duendes, as ninfas, as dríades, os faunos e todos os restantes ligados à terra e à vegetação mais rasteira.
FOGO
A generalidade dos cultos ou rituais religiosos são realizados com a presença muito ativa deste Elemento, seja através de uma fogueira ou de uma simples vela, sendo um Elemento tranmutador e transformador, detentor de um grande misticismo e respeito. Possui caraterísticas opostas às da água, como o calor e a expansão e segundo a crença pagã, o fogo e água teriam sido os elementos básicos com os quais tudo foi criado.
Os elementais do fogo que, segundo uma orientação esotérica, serão capazes de controlar o elemento fogo e o representar, são as salamandras, a fênix, o dragão e o singular boitatá.
ÉTER
A “Quintessência”, ou “Akasha” será o princípio original, o espaço cósmico ausente de vazio. É o “substrato espiritual primordial”, aquele que se diferencia. É a matriz do Universo e a base de toda a verdadeira magia. É o local onde ficam retidas todas as emoções, todas as ações e todas as memórias.
É nele que reside o verdadeiro conhecimento, equivalendo-se numa comparação livre ao que Jung chamou de inconsciente coletivo, evocando uma memória universal da humanidade, da qual percebemos breves momentos. É por isso que é considerado o mais singular dos cinco elementos, a base de todas as coisas da criação. Segundo Franz Bardon, o que algumas religiões chamam de Deus.
Sendo Elementos, “per si”, sagrados, a sua correlação traz aquilo que, com a devida orientação, podemos chamar de magia. A abordagem Umbandista a este tema, não sendo de todo uníssona, parte do pressuposto de se assumir como uma religião anímica, tendo como base a “anima” (alma) da Natureza, que se constitui pela agregação desses elementos, a sua transformação, e o direcionar da energia criada por essa via. Conta uma história bem conhecida que “a 15 de novembro de 1908, compareceu a uma sessão da Federação Espírita, em Niterói, então dirigida por José de Souza, um jovem de 17 anos de família tradicional fluminense. Chamava-se Zélio Fernandino de Moraes. Restabelecera-se, no dia anterior, de moléstia cuja origem os médicos haviam tentado, em vão, identificar. A sua recuperação inesperada por um espírito causara enorme surpresa, pois nem os médicos que o assistiam, nem os tios, sacerdotes católicos, haviam encontrado uma explicação plausível ou mesmo minimamente convincente. A família atendeu, então, à sugestão de um amigo, que se ofereceu para acompanhar o jovem Zélio à Federação Espírita, para o acompanhar num trabalho. Zélio foi convidado a participar da Mesa. Sentiu-se deslocado e constrangido, no meio daquelas pessoas.
E causou logo um pequeno tumulto. Sem saber porquê, em dado momento, ele disse: (…)"Aqui está faltando uma flor”. E, apesar da advertência de que não poderia afastar-se, levantou-se, foi ao jardim e voltou com uma flor que colocou no centro da mesa. Serenado o ambiente e iniciados os trabalhos, manifestaram-se espíritos que se diziam de índios e escravos. O dirigente
advertiu-os para que se retirassem, o que causou um pequeno tumulto e breve diálogo acalorado, no qual os dirigentes dos trabalhos procuravam doutrinar o espírito desconhecido que se manifestava e mantinha argumentação segura. Por fim, um dos videntes pediu que a entidade se identificasse, já que lhe aparecia envolta numa aura de luz…(…). De facto, numa análise mais cuidada a este relato, complementado com outros mais ou menos rigorosos, pode subentender-se
que aquilo que o menino Zélio fez foi, mais do que colocar uma flor como símbolo da Natureza, da própria vida, foi acrescentar o Elemento Terra, aos outros que já existiam na sessão Espírita. O Fogo, por meio da vela acesa, a Água, num copo, e o Ar, presente no próprio ambiente. Completando o “ciclo”, terá desencadeado as ações e reações que originaram a Umbanda como hoje a conhecemos…
Na próxima Edição, trataremos do significado litúrgico dos elementos da Natureza na Umbanda, o seu uso e a magia presente nas suas transmutações.
Vitorino Camelo e Claudio Ferreira, A.T.U.P.O.

“Pé de Orelha” com o Sr. Pé-de-Vento





“Pé de Orelha” com o Sr. Pé-de-Vento

Dicas para a Felicidade

Durante a celebração anual que fazemos em honra do nosso Pai Pé-de-Vento o “Fundamento” foi-lhe pedir que partilhasse com todos vós, os que frequentemente falam com ele, mas, principalmente com os que nunca o fizeram, alguns momentos de reflexão.
Depois de lhe ser exposta a nossa intenção, a reacção não se fez esperar: “Está anervosada, filha?” Sim, um pouco. Sou algo perfeccionista!” “Não é nada, filha. Perfeito é só Deus. E sabe
porquê, filha? Porque ninguém o vê, porque senão também lhe apontavam o dedo…(risos)

Serenado o nosso espírito com esta pequena ajuda do Pai, começamos a nossa conversa. Aqui vai o resultado desse Pé de Orelha.

… sobre responsabilidade...

Todo o ser humano se acha uma vítima, “os outros é que têm a culpa”. A falta de responsabilidade é tão grande que as voltas que temos de dar para chegar onde temos de chegar acabam por ser muito grandes.
Às vezes as pessoas não conseguem mesmo enxergar. Muitos vêem apenas as dificuldades de passar pelas coisas, aí tem o trabalho do baiano, o trabalho do caboclo, o trabalho do Exú e depois disso tudo, mesmo assim, as pessoas mantêm o que as trouxe até aqui “O problema está nos outros”. Em vez de procurar nos outros, se formos à procura acabamos por encontrar os caminhos!

… sobre o que vê quando olha a corrente e a assistência...

Vejo pessoas como toda a gente (risos).
Pessoas carregadas de infortúnios; pessoas cheias de esperança de resolver os seus problemas; pessoas com alegria porque se sentem em casa; pessoas que saem daqui pondo na boca dos guias palavras que eles não disseram e ainda os que não conseguem ver o que fazemos e saem daqui “mangando” de nosso trabalho.
Há os que têm a esperança de vencer e que tentam por em prática as palavras que
ouvem. Quando às vezes as coisas não correm bem, uns insistem e outros desistem.

… sobre a Vida...

A Vida não é para desistir. Quando desistimos morremos um pouco por dentro. Às vezes vemos pessoas tristes porque partes dessas pessoas morreram, não por não terem tentado, mas por não terem conseguido o sucesso e depois perderam a confiança em si próprios. Temos de levar a esperança dentro de nós. Temos de olhar para o mundo com esperança.

… sobre os Elementos...

Existe uma chama dentro de nós, a chama da mudança para a transformação: o Fogo. Para fazer qualquer coisa é preciso Força, Calor, Calor Humano. O Fogo é a Chama da Vida, correcção que transforma as coisas e, como disse Exú, por mais que exista o frio não podemos deixar o Fogo apagar.
O Fogo aquece a Terra e dá a Vida. É como a Água. O que significa a Água? Significa a Grande Mãe, a Maternidade, a Esperança. Entre o Fogo e Água tem de haver equilíbrio, mas o Fogo é o que nos movimenta para continuarmos a guerrear e por isso não pode apagar. A Água, por
sua vez, é a Emoção, o sentimento do Amor e do Carinho.
É preciso haver equilíbrio porque foi através desse equilíbrio entre os elementos que se deu a Geração da Vida na Terra: uma parte veio do Ar e outra do Fogo; o mesmo que vive muito próximo da Terra e do aspecto terreno que molda e que nos dá a Força e a direcção. O Fogo aqueceu os vapores da Terra e da junção de todos eles – Fogo, Água, Ar e Terra - nasceu a Vida.
De todos os elementos, O Ar é o mais espiritual, porque é aquele que não se vê. Tal como nas nossas vidas, não vemos o Invisível a menos que venha com movimento, como quando sentimos a brisa esentimos mais harmonia dentro de nós.
Daí a importância do equilíbrio, os desequilíbrios emocionais e físicos só surgem quando não sabemos viver.

… sobre o Destino e o Livre Arbítrio...

O Destino existe? Se o destino existisse da forma que vocês falam, o Divino não podia existir. Algumas coisas existem e o Destino existe de algumas maneiras, por exemplo sob a forma de
sentimentos e emoções, no amor-próprio, nas necessidades materiais. Mas nós temos escolha. Não há um sítio onde esteja escrito qual seria o sentido do espírito passar na Terra. O nosso Destino é um livro que escrevemos.
Temos que olhar para a Vida como para um livro em que o final depende de como o escrevemos
porque somos os escritores da nossa vida. Tal como acontece com aquelas pessoas que escrevem as situações que vivem, tudo o que lhes acontece, só que o final será como o escrevermos e cabe-nos a nós escrever um final feliz.
Quando o livro é bom nunca acaba, há sempre um segundo livro, tal como há sempre uma segunda vida.
Aquelas pessoas que não conseguem ver a alegria, a felicidade e põe sempre problemas em tudo não conseguem escrever um final feliz, por isso as encarnações existem e são aprendizado. Quando as situações do livro se repetem é porque não houve aprendizagem.
… sobre o respeito devido aos mais velhos...

Existem espíritos nascendo na Terra que ainda não escreveram o seu livro, por isso é tão importante o respeito pelos mais velhos. Eles trazem conhecimento e sabedoria., também trazem mais espiritualidade e temos muito que aprender com os espíritos mais sábios. Isto não
quer dizer que os mais velhos daqui são os mais sábios de todos. Não, as crianças também são muito sábias. É algo que dizemos, os espíritos encarnados na Terra têm mais conhecimentos sobre a Terra, mas não têm mais conhecimento espiritual do que os espíritos mais novos. Quando falo em espíritos mais velhos, refiro-me àqueles que já escreveram os seus livros.
… sobre as responsabilidades de quem trabalha na “Seara Divina”...

Trabalhar com mais pessoas traz uma responsabilidade maior… ou exige que se trabalhe com mais médiuns. Também é preciso que se usem menos palavras e que estas façam mais sentido. É preciso exigir cada vez mais que os espíritos sejam exigentes para conseguir tocar nas consciências das pessoas para que elas consigam encontrar o seu caminho
... sobre “até onde vai esta casa”...

Qual é o destino desta casa? Ele está
nas mãos do trabalho que vocês fazem hoje. Cresçam para despertar consciências.
Libertem-se do material e trabalhem para despertar o equilíbrio e a consciência das pessoas para que assim elas vivam melhor e possam passar essa mensagem para os outros.
Tudo depende deste Pai e destes Filhos, se eles continuam a acreditar e a procurar um mundo melhor e a trazer Aruanda para o planeta Terra. Aruanda também faz parte da Terra, mas é um local de aprendizagem um pouco mais evoluído.
Aonde esta casa vai chegar não se sabe, o que interessa é a emoção e o equilíbrio de cada um de vocês. Quando caem, há sempre alguma coisa que vos faz levantar. Balançar faz parte dessa caminhada. Podemos cair, somos humanos, mas levantamo-nos de novo! Mas principalmente quem trabalha na Seara Divina não pode deixar cair os outros.
Alguns caem, babalaôs, babalórixás, pastores, padres, todos esses que falam muito bonito, que dizem que as pessoas têm de conseguir e que acham que são a verdade das suas palavras. Lutem para que as palavras façam parte das vossas vidas. A magia das palavras só acontece quando
conseguimos transmitir aos outros a humildade de saber ouvir.

… para finalizar...

Cada Orixá ensina alguma coisa, Fé, Amor, Justiça, Família, Conhecimento, Ordem, Evolução. Os Orixás podem ser muita coisa, mas eles só fazem sentido, só significam Vida quando estão vivos no coração dos homens. Aí, cada Orixá se manifesta para as coisas boas da nossa vida.
Mais importante do que serem como essas pessoas que falam bonito é que caminhem com as palavras que dizem, que respirem e vivam delas porque é isso que vai fazê-los felizes e muitas vezes os passos que damos na Terra são os que acabam por contar.
Lembrem-se que as pessoas não seguem palavras, seguem acções!

Fernanda Moreira - A.T.U.P.O. - Jornal Fundamento, Edição 8

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A família-de-Santo


A família-de-Santo


Quando os negros africanos foram levados para o Brasil, para viverem como escravos nas fazendas dos senhores brancos, foram privados, não só da sua liberdade, mas também das suas raízes familiares, culturais e religiosas. A luta pela sobrevivência numa terra estranha, aliada à falta dos laços familiares e à necessidade de preservar a sua cultura, levou à integração de negros oriundos de diferentes etnias e regiões da África e, consequentemente, à fusão de culturas e cultos religiosos. Nasciam assim nas senzalas os primeiros cultos afro-brasileiros e com eles o conceito de família-de-Santo – a recriação da família perdida, tão importante para a conservação dos costumes e valores das culturas africanas.

A Umbanda herdou da sua raiz africana este conceito de família e é fundamental que todos os filhos-de-Santo compreendam a importância do mesmo. Para que uma corrente mediúnica possa realizar com sucesso a missão que lhe foi confiada pelos Orixás, é necessário que existam, entre os seus elementos, sentimentos de amor, união e fraternidade. É essencial que todos se respeitem, sejam verdadeiros e honestos e sejam capazes de estender a mão ao irmão que está mais fraco e necessita de auxílio. Como diz o ditado, “a união faz a força”! Por isso, se todos zelarem pela união da corrente, dificilmente surgirão elos fracos por onde ela se possa quebrar.

Mas a família-de-Santo não é apenas importante dentro do Templo de Umbanda. Aos olhos dos Orixás somos todos irmãos e só uma família na qual vibrem sentimentos de amor e união, poderá reflectir, tanto dentro como para fora do Templo, os ensinamentos dos Guias espirituais e do nosso amado mestre Jesus.

Que Oxalá abençoe a todos e à nossa amada Umbanda! B.C.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

fé cega, fé racional e Fé


Muitas vezes nos deparamos com autores e palestrantes, das mais diferentes agremiações religiosas afirmando que há duas formas de fé: a cega e a racional. Porém, nenhuma das duas é realmente Fé, mas simulacros de Fé e, talvez por isso mesmo, precisem de adjetivos. No caso da fé cega, é fácil percebê-la no discurso daqueles que pensam Deus como algo que vai realizar nossos desejos, como se fosse um "gênio da lâmpada". Essa fé cega aparece em vários movimentos esotéricos e em setores do movimento evangélico. São aqueles que dizem que se você pensar em um colar de diamantes o "universo" vai trazê-lo até você ou quando fica doente diz que não vai procurar um médico porque acredita que Deus vai curá-lo. Um outro exemplo de fé cega pode ser visto no motorista que diante de um alagamento da marginal Tietê, em São PAulo, diz que Deus vai fazer o carro atravessar e fica parado no meio, tendo o carro encoberto pela água. Estes são alguns exemplos de fé cega. Deus é um escravo disponível 24 horas para realizar nossos desejos, dos mais mesquinhos aos mais solidários, mas que continuam sendo os nossos desejos.

Porém, a fé racional, é o outro lado dessa moeda. É a fé de Tomé, que precisa ver para crer. Nem sempre é preciso ver, mas encontrar uma explicação racional para um fato desagradável como é comum em centros espiritistas onde é possível se consultar com "entidades". Nesses casos é comum encontrarmos pessoas que chegam bufando de raiva porque aconteceu algo desagradável e quando a "entidade" explica que em uma vida passada ela fez isso ou aquilo e por causa disso foi necessário passar por uma determinada vicissitude negativa, a pessoa entende racionalmente a situação e aceita, parando de sofrer ou de sentir raiva. Como afirmei, essas duas formas acima de fé são simulacros da Fé, mas trazem, obviamente, elementos que permitem que se transforme em uma verdadeira entrega aos designios de Deus, compreendendo que nada acontece em nossa vida que não contenha a oportunidade de aprender, seja a paciência em uma situação desagradável ou não ficar eufórico em uma agradável. A Fé não necessita de crença ou de racionalização, é vivida intensamente, é uma entrega e uma confiança plena a essa força superior que nos guia e que não existe para satisfazer o nosso ego, mas para realizar o que precisamos vivenciar, seja negativa ou positivamente, dentro do parâmetro estreito do nosso ego. Assim, quando passamos por uma vicissitude negativa, não é preciso pensar que está colhendo o que plantou, mas quem tem Fé agradece sempre a Deus pela oportunidade de tirar algum proveito espiritual daquela situação, aprendendo a ser mais paciente, compreensivo, a perdoar ou mesmo que não se deve agir daquela forma, fazendo aos outros apenas aquilo que gostaríamos que os outros fizessem conosco, mas sem precisar lamentar, espernear etc. Em alguns casos é necessário ser enérgico, mas essencialmente amoroso, pois nem todos estão preparados para serem livres, porém responsáveis. Enfim, a Fé é um sentimento inerente ao espírito e quando desperto se transforma em uma energia de grande intensidade que transforma a vida cotidiana de quem a vivencia e que não cabe nos limites estreitos do ego ou de sua cegueira ou racionalidade.

Adilson Marques

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O Axé das Ervas



Muito antes do surgimento da escrita, o homem primitivo já experimentava a diversidade de plantas ao seu dispor, classificando-as consoante a sua potencialidade: alimentação, medicina, veneno, alucinogénicos. O conhecimento sobre as potencialidades das plantas tem, por isso, a sua raíz na nossa ancestralidade, sendo que estas foram objecto de estudo de várias civilizações, ao longo dos tempos. A necessidade humana em conhecer e usar a natureza à sua volta para dela retirar benefícios, levou a que se encetasse esta jornada. A utilização de algumas plantas com capacidades de cura fizeram destas os primeiros recursos terapêuticos e uma das primeiras formas de manifestação do homem.

Registos escritos sobre a forma de utilização e efeitos são vários e chegam-nos de diversas épocas e pontos do planeta, desde os Chineses em 3000 a.C. aos Aztecas no Século XVI. Os primeiros relatam a importância das plantas em cerimónias de magia e de medicina, havendo também referências a outros usos, nomeadamente na alimentação.

O registo escrito mais antigo de que dispomos data do ano 3700 a.C. e consiste num tratado médico deixado pelo imperador chinês Shen Nung, onde afirmava que, para cada doença existia uma planta, que forneceria um remédio natural.

No entanto, o mais conhecido denomina-se Papiro de Ebers e tem a sua origem no Antigo Egipto, por volta de 1500 a.C., contendo centenas de fórmulas e remédios. Foi descoberto pelo egiptólogo alemão George Ebers. Os egipcíos tinham bastantes conhecimentos sobre o uso de plantas, recorrendo a estas para diversos e variados fins, tais como: alimentação, medicina, cosmética, embalsamento, incensos, óleos para dores musculares e relaxamento, entre outras. A história da aspirina, por exemplo, pode ser remontada até ao Antigo Egipto. Do Antigo Egipto chega-nos um famoso médico da antiguidade – Imhotep.

Da Mesopotâmia, actual Iraque, e berço da civilização humana, chegam-nos registos em placas de barro datadas entre 3000 e 2000 a.C. que dão conta de trocas comerciais de plantas.

Da Índia temos registos que datam aproximadamente do ano 2500 a.C., nomeadamente o Athatva Veda, e que indicam que o consumo e uso de ervas tinham a finalidade de prolongar a vida. Um facto curioso é que os hindus acreditavam que apenas os puros e piedosos podiam colher as plantas e que estas deviam crescer longe da vista humana e do pecado, pois estas eram “as filhas predilectas dos deuses”, assumindo por isso uma posição divina.

Na Grécia, no Século XIII a.C., teve lugar o aparecimento do primeiro “spa” de que se tem conhecimento, bem como a existência de diversos templos de cura que recorriam às propriedades terapêuticas das plantas. Os gregos fizeram um esforço em compilar o conhecimento que lhes chegou de várias partes do mundo conhecido, nomeadamente da Índia, Babilónia, Egipto e mesma da China. O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) e o seu discípulo Teofrasto (370-286 a.C.) foram os criadores do primeiro sistema científico de classificação botânica.

Durante a Idade Média, devido às dificuldades criadas pela Igreja ao progresso científico, os estudos médicos das plantas restringiram-se aos monges nos mosteiros e a algumas mulheres em aldeias remotas. Além disso, a Igreja considerava as doenças como castigo divino e, portanto, não passíveis de intervenção humana. Este facto levou a que o estudo sobre o uso de plantas ficasse limitado ao mundo árabe. Neste contexto, é de salientar o esforço dos persas em traduzir o trabalho realizado pelos gregos, continuando assim o seu estudo.

No Renascimento, Século XV, deu-se o regresso do estudo sobre plantas ao Velho Continente, sendo esta uma era dourada neste campo, onde se fizeram inúmeras descobertas de curas para várias doenças. Houve uma centralização sobre o estudo das plantas, o qual passou a ser proibido às mulheres e curandeiros não profissionais. Quem o fizesse seria considerado herege. No século XVI, um suíço chamado Philippus Aureolus Theophrastus percorreu a Europa, contactando com curandeiros, parteiras e feiticeiros, em busca do conhecimento sobre plantas e minerais. Mais tarde viria a ser conhecido como Paracelso, o fundador da Alquimia e precursor dos conceitos da influência cósmica sobre as plantas e as suas relações com os quatro elementos – terra, água, fogo e ar.

Já na era dos Descobrimentos, os povos europeus observaram e registaram o uso de ervas pelos nativos para fins medicinais e alimentares. Estes povos nativos não possuiam mais do que alguns registos sobre a forma de pinturas rupestres, sendo, no entanto, plausível que estes recorressem às plantas para a sua dieta e medicina desde a sua chegada ao continente americano, há cerca de doze mil anos. Quase todo o conhecimento sobre a flora brasileira foi descoberto por cientistas estrangeiros, especialmente os naturalistas, através da realização de expedições científicas ao Brasil, desde os descobrimentos portugueses até ao final do século XIX.

Com o advento da Revolução Industrial e o início da Era Moderna, final do Século XIX, o Homem foi capaz de sintetizar partes das plantas, fazendo com que a medicina natural fosse ridicularizada, pois era considerada como ultrapassada. No início do Século XX, o uso de plantas deixou de ser comum. Contudo, recentemente esta tendência tem vindo a mudar com o ressurgimento da medicina natural, nomeadamente no uso destas como complemento a certos tratamentos, cujos efeitos secundários dos medicamentos são nocívos.

Também ao longo de toda a história da Humanidade, encontramos a utilização das plantas em quase todas as religiões ou cultos religiosos, não apenas associada à cura e tratamento de doenças, a medicina natural, mas também como elementos ritualísticos e magísticos, capazes de facilitar a ligação do ser Humano com o plano espiritual. Em todos os povos e culturas, as ervas tornaram-se conhecidas pelas suas propriedades para repelir energias negativas, afastar o mal ou proteger de azares, bem como pela capacidade de atrair energias positivas, boa sorte e fortuna.

Tanto na pré-história como nas civilizações da antiguidade, o curandeiro ou homem da medicina era, simultaneamente, o sacerdote ou líder espiritual, acumulando, por inerência às suas funções, todo o conhecimento medicinal com o conhecimento religioso e espiritual. Assim, ao longo dos séculos, feiticeiros, xamãs, curandeiros e sacerdotes, foram conhecendo as propriedades energéticas e espirituais de cada planta e aprendendo a utilizá-las como elementos preciosos para estabelecer a comunicação com as divindades e espíritos dos antepassados, bem como para alcançar o equilíbrio espiritual desejado.

Tal como aconteceu noutras religiões, a Umbanda herdou das suas raízes, principalmente da africana e indígena, o conhecimento da utilização das ervas (folhas, flores, raízes, sementes, etc.) tanto a nível medicinal como magístico e espiritual. Este conhecimento chegou da antiguidade até aos nossos dias, não só através da transmissão oral do conhecimento popular, de geração em geração, e dos estudos científicos realizados ao longo dos séculos, mas também do plano astral, através das entidades espirituais, nomeadamente daquelas que mais viveram em comunhão com a natureza, como é o caso dos Caboclos, Pretos-velhos e Boiadeiros.

Na Umbanda, para além do uso terapêutico, as ervas são utilizadas tanto para a limpeza energética, como para a imantação ou energização de pessoas, ambientes ou lugares. Esta utilização é feita de várias formas que vão desde os banhos e amacis de ervas, passando pelo fumo resultante da combustão de elementos vegetais na defumação ou no queimar de um charuto, até à simples utilização das folhas verdes durante um “passe”. Quem não conhece os banhos de descarrego ou defesa, a famosa arruda utilizada pelo Preto-velho ou ainda o charuto do Caboclo?

Para além das propriedades químicas, cada planta possui qualidades energéticas que são nada mais, nada menos, do que a Energia Vital da homeopatia, o Prāna dos Hindus, o Qi dos chineses ou simplesmente o Axé da Umbanda. Cada planta carrega a vibração energética de um ou vários Orixás e é a manipulação destas energias, associada a outros elementos magísticos, que os Guias e sacerdotes da Umbanda utilizam como recurso para estabelecer ou restabelecer o equilíbrio energético e espiritual.

Dependendo da necessidade, problema ou situação, entidades e sacerdotes recorrem a uma ou mais ervas, de acordo com o conhecimento que possuem sobre as suas qualidades energéticas e formas de utilização, para que actuem atraindo ou activando as vibrações de um ou mais Orixás, obtendo assim a harmonia e o equilíbrio físico, mental, emocional ou espiritual necessário. Da mesma forma, utilizam o “sangue vegetal” portador de essências divinas, para eliminar e transmutar as energias negativas, limpando ambientes e pessoas. As ervas são verdadeiras dádivas divinas e são essenciais na ritualística de Umbanda. Exemplo do seu valor e importância, é a defumação realizada no início da Gira, essencial para a limpeza e purificação do ambiente energético do terreiro e desobstrução e alinhamento dos chacras dos médiuns, contribuindo para uma maior capacidade de concentração, elevação do pensamento e, consequentemente, uma maior aproximação dos Guias.

Actualmente, assistimos a um renascer do interesse cada vez maior da ciência pelo poder das plantas, através do estudo e desenvolvimento das chamadas medicinas naturais ou alternativas. Terapias baseadas nas propriedades das plantas, como a fitoterapia e os florais, são hoje reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde. Conhecimentos milenares, que hoje a ciência redescobre, são preservados e postos em prática diariamente, não só dentro dos templos de Umbanda e de outros cultos afro-brasileiros, como no seio de outras religiões.

FONTE: http://raizculturablog.wordpress.com/2009/01/21/ervas-e-seu-uso-ancestral/; http://www.ervasdositio.com.br/


Bernardo Cruz e Fred Marques - A.T.U.P.O.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Homenágem a Yemanjá


Dia 25 de Junho de 2011

Mais um dia histórico para a A.T.U.P.O., mais uma Homenagem a Yemanjá, onde a Partilha, o Amor, o Respeito, a Fé e como sempre uma mão cheia de novidades e bênçãos dos céus que nos dão cada dia que passa uma certeza de trilhar no caminho certo e uma vontade enorme de continuar a ser quem somos e da maneira que somos.

Foram horas maravilhosas de convívio com guias , com entidades, com irmãos, com amigos e até estranhos e curiosos que passavam na praia e que de admiração tinham tanto como nós de ALEGRIA E PRAZER POR FAZER AQUELE TRABALHO.

Bem hajam os guias que nos vieram abençoar, bem hajam as pessoas que estoicamente e sobre um sol abrasador nos acompanharam e bem haja MÃE YEMANJÁ por todo o Amor derramado por estes teus filhos.

SALVE MÃE YEMANJÁ

SER BOM MÉDIUM


Ser bom médium

Já muito se falou e escreveu acerca da mediunidade. No entanto, tanto médiuns de trabalho como consulentes colocam muitas vezes a questão: “O que é necessário para ser um bom médium?”

Não querendo criar uma “receita” para algo que depende do esforço, empenho e dedicação de cada um, é inquestionável que o bom e correcto exercício da mediunidade exige que o médium cultive em si mesmo um conjunto de valores e atitudes como a Fé, o amor, a honestidade e rectidão, a humildade e a responsabilidade.

Mas, para além destes valores, existe um outro aspecto essencial para o crescimento do médium – o conhecimento. Conhecer as normas de funcionamento do Templo, a ritualística ou os pontos cantados não basta para se ser um bom médium de trabalho. A busca do conhecimento sobre a religião e seus fundamentos, sobre a espiritualidade, as Entidades, suas linhas de trabalho e forma de actuação, ervas e banhos, e principalmente sobre o ser Humano e a vida deve ser constante e é fundamental para um bom crescimento do médium, enquanto instrumento de trabalho dos Guias e Orixás.

O conhecimento permite a compreensão e o entendimento, que, por sua vez, geram a consciência, a qual se transforma em amor. O médium que adquire maior consciência sobre a espiritualidade e sobre a vida aumenta a sua capacidade de amar o próximo e a si mesmo, tornando mais forte a sua conexão com o Divino e, consequentemente, mais firme e equilibrada a ligação com as Entidades com quem trabalha. O conhecimento do médium é uma mais-valia para os Guias que o utilizam como ferramenta no trabalho espiritual. É claro que para esta conquista de consciência não basta o conhecimento teórico, é necessária também a prática. Além de estudar, o médium deve ser activo e participativo nos trabalhos do Templo.

A reforma de princípios e valores juntamente com a busca do conhecimento são fundamentais para o crescimento do indivíduo, não apenas como médium, mas também como ser Humano, sob pena de estagnar na sua caminhada.

Que Oxalá abençoe e ilumine a todos.

Bernardo Cruz , A.T.U.P.O.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

LENDA DE OXÓSSI


A cada ano, após a colheita, o rei de Ijexá, saudava a abundância de alimentos com uma festa, oferecendo inhame, milho e coco. O rei comemorava com sua família e seus súditos, só as feiticeiras não eram convidadas. Furiosas com a desconsideração, enviaram à festa um pássaro gigante que pousou no teto do palácio, encobrindo-o e impedindo que a cerimônia fosse realizada.

O rei mandou chamar os melhores caçadores da cidade. O primeiro tinha vinte flechas. Ele lançou todas elas, mas nenhuma acertou o grande pássaro. Então o rei aborreceu-se e o mandou embora. Um segundo caçador se apresentou, este com quarenta flechas, o fato se repetiu novamente e o rei mandou então prendê-lo.

Bem próximo dali vivia Oxóssi, um jovem que costumava caçar à noite, antes do sol nascer, ele usava apenas uma flecha vermelha. O rei mandou chamá-lo para dar fim no grande pássaro. Sabendo das punições imposta pelo rei aos outros caçadores, a mãe de Oxóssi temendo pela vida do filho, consultou um babalaô, e os obis mostraram que, se fosse feita uma oferenda para as feiticeiras ele teria sucesso.

A oferenda consistia em sacrificar uma galinha. Nesse exato momento, Oxóssi deveria atirar a sua única flecha. E assim o fez, acertando o pássaro bem no peito ferindo-o de morte. O rei agradecido pelo feito, deu ao caçador metade de sua riqueza e a cidade de Keto, “ terra dos panos vermelhos”, onde Oxóssi governou até a sua morte, tornando-se depois um Orixá.


In "Mitologia dos Orixás"de Reginaldo Prandi, Ed. Companhia das Letras.

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Esta lenda mostra claramente que a energia de Oxóssi está ligada à fartura, à prosperidade. É Oxóssi que, com o seu tiro certeiro, mata o pássaro gigante, pousado no teto do palácio, permitindo assim que continue a celebrar-se a abundância de alimentos e recebendo em troca metade da riqueza do rei e uma cidade.

É Oxóssi que, com a sua flecha, providencia para que nada falte ao seu povo , adentrando pelas matas, na calada da noite, sem medo dos perigos, em busca da caça, do alimento. E é a busca constante, à procura do alimento, que lhe permite conhecer as matas, cada árvore, cada folha. Assim, a energia de Oxóssi está ligada a essa busca que visa em si o conhecimento; não só o conhecimento do mundo que nos rodeia, pois é a energia de Oxóssi que está ligada às diferentes áreas do saber, a ciência, a educação, a filosofia, mas também e principalmente ao conhecimento de nós mesmos, das nossas necessidades, para que possamos crescer e evoluir enquanto seres materiais e espirituais. É a energia de Oxóssi que vibra em nós, quando refletimos, buscamos o nosso interior, para compreendermos quem somos e quem queremos ser. É neste sentido que a energia de Oxóssi atua como Caçador de Almas que, com a sua flecha certeira, instrumento de fé, nos resgata, nos cura, derrotando o pássaro gigante que habita dentro de nós , permitindo, assim, que possamos viver com a certeza de que Oxóssi nos guiará no caminho da Luz, sempre buscando, sempre partilhando, para que a fartura, a abundância sejam sempre celebradas por todos nós!


Mary Nogueira - ATUPO

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Lenda de OXALÁ


Orixalá cria o mundo

No começo, o mundo era todo pantanoso e cheio de água, um lugar inóspito, sem nenhuma serventia. Acima dele havia o céu o Orum, onde viviam Olorum e todos os Orixás, que às vezes desciam para brincar nos pântanos insalubres. Desciam por teias de aranhas penduradas no vazio. Ainda não havia terra firme, nem o homem existia. Um dia Olorum chamou à sua presença Oxalá, o grande orixá. Disse-lhe que queria criar terra firme lá em baixo e pediu-lhe que realizasse tal tarefa. Para a missão, deu-lhe uma concha marinha com terra, uma pomba e uma galinha com pés de cinco dedos. Oxalá desceu ao pântano e depositou a terra da concha. Sobre a terra pôs a pomba e a galinha e ambas começaram a ciscar. Foram assim espalhando a terra que viera na concha até que terra firme se formou em toda a parte. Oxalá voltou a Olorum e relatou-lhe o sucedido. Olorum enviou um camaleão para inspeccionar a obra de Oxalá e ele não pode andar sobre o solo que ainda não era firme. O camaleão voltou dizendo que a terra era ampla mas ainda não suficientemente seca. Numa segunda viagem o camaleão trouxe a notícia de que a Terra era ampla e suficientemente sólida, podendo-se agora viver em sua superfície. O lugar mais tarde foi chamado de Ifé, que quer dizer ampla morada. Depois Olorum mandou Oxalá de volta a Terra para plantar árvores e dar alimentos e riquezas ao homem. E veio a chuva para regar as árvores. Foi assim que tudo começou. Foi ali, em Ifé, durante uma semana de quatro dias que Orixá Nlá criou o mundo e tudo o que existe nele.
Obatalá cria o homem (…) Mas a missão não estava ainda completa e Oludumare deu outra dádiva a Obatalá: a criação de todos os seres vivos que habitariam a Terra. E assim Obatalá criou todos os seres vivos e criou o homem e criou a mulher. Obatalá modelou em barro os seres humanos e o sopro de Olodumare os animou. O mundo agora se completara. E todos louvaram Obatalá.

In "Mitologia dos Orixás"de Reginaldo Prandi, Ed. Companhia das Letras.

Esta lenda narra a história da criação do mundo e da humanidade: Olorum ( que é o Ser Supremo, Deus) incumbe a Oxalá a responsabilidade de criar a Terra. Depois da sua formação, estando ela pronta e em condições de acolher a vida humana, Oxalá recebe de Olorum (ou Olodumare) a tarefa sublime de criar o homem, a mulher, a humanidade. Oxalá é por isso o Orixá responsável pela existência de todos os seres do céu e da terra, é o Pai da humanidade. É o Pai Maior, Criador e Pacificador, detentor da Luz espiritual, é a energia que cuida de todos os seres do planeta, de todos os homens. Oxalá é também a Luz Divina que irradia os seus raios sobre todos os Orixás. A sua cor é o branco, representando a pureza, a paz e no branco se inserem todas as cores, todos os raios todos os Orixás, que a Ele estão ligados. Não nos esqueçamos que o Seu principal atributo é a Fé, a Fé que nos liga ao Ser Supremo, ao Divino Criador. Então, o que seria de nós sem a Fé? O que seria do Amor sem a Fé? O que seria da Justiça sem a Fé? É ela que, ao vibrar em cada um de nós, nos permite evoluir, crescer espiritualmente, para que tenhamos êxito naquilo que queremos, naquilo que precisamos e para o qual lutamos. E que melhor exemplo de Fé do que Jesus Cristo, que se despojou dos seus bens, curou os doentes, estendeu a mão aos desamparados e venceu a morte? Por isso a Sua imagem está presente em todos os Templos de Umbanda e está associada a Oxalá. É a mesma energia, a centelha divina que existe em cada um de nós, estimulando a busca espiritual, através da religiosidade, da caridade e de amor ao próximo e por tudo aquilo que Oxalá criou, num acto de Inspiração e de Fé!

Mary Nogueira - A.T.U.P.O.

A ESCRITA SAGRADA - PARTE 1


A Escrita Mágica

Na sua origem, o Homem utilizou a escrita e o desenho como meio de expressão e de comunicação para consigo e com os seus semelhantes. Actos de admiração, valentia, luta, transformação, caça, louvação... Todos estes aspectos o Homem transformava em algo visível para que pudesse cultuar seus actos ou cultuar os seus Deuses. Através deste tipo de representação, trocava mensagens, passava ideias e transmitia os seus desejos, as suas necessidades e os seus temores.

A origem da escrita surgiu assim no início da nossa caminhada – a pré-história.

Ao longo dos tempos, a escrita foi-se desenvolvendo e transformando mediante o crescimento de cada povo, de cada ser. A escrita manteve a sua forma de meio de comunicação e expressão de conhecimento ao longo dos séculos, pois nos seus inícios a escrita teve uma conexão com o mágico, o espiritual, com os Deuses e com o Divino. A escrita usada pelos sírios, hebreus e persas, surgiu ligada às necessidades de contabilização dos seus templos. Era uma escrita ideográfica, na qual o objecto representado expressava uma ideia. Os sumérios e mais tarde, os babilónicos e os assírios fizeram uso extensivo da escrita cuneiforme ( foi desenvolvida pelos sumérios e é a designação geral dada a certos tipos de escrita feitas com auxílio de objectos em formato de cunha. Fonte: Wikipédia).

Mais tarde, os sacerdotes e escribas começaram a utilizar uma escrita convencional, que não tinha nenhuma relação com o objecto representado. As convenções eram conhecidas pelos encarregados da linguagem culta, que procuraram representar os sons da fala humana, isto é, cada sinal representando um som. Surgia assim a escrita fonética, que pelo menos no segundo milénio a.C., já era utilizada nos registos de textos religiosos e rituais mágicos.

A civilização Egípcia teve um grande poder na ligação da escrita com os Deuses e com os seus rituais. Os faraós eram considerados Deuses vivos. Acreditava-se que estes governantes eram filhos directos do Deus Osíris, portanto agiam como intermediários entre os Deuses e a população Egípcia. Ainda em vida, o Faraó começava a construir a sua pirâmide, devendo preparar o túmulo para o seu corpo. Este povo, acreditando na vida após a morte, utilizava a pirâmide para guardar, em segurança, o corpo mumificado do Faraó e os seus tesouros. No sarcófago era colocado também o livro dos mortos, onde constavam todas as acções positivas que o Faraó fez em vida. Esta espécie de biografia era importante, pois os Egípcios acreditavam que Osíris (Deus dos mortos) iria utilizá-la no seu julgamento final. A escrita foi, neste e noutros aspectos, de importância fundamental para este povo, permitindo a divulgação de ideias e uma comunicação elaborada e eficaz. Existiam duas formas principais de escrita: as escritas demóticas (mais simplificadas e usadas para assuntos do quotidiano) e a hieroglífica (mais complexa e formada por desenhos e símbolos). As outras formas de escrita gravavam textos mais vulgares; os hieróglifos, tais como as diferentes esculturas e monumentos, aspiravam à eternidade. Os templos, as colunas e os obeliscos Egípcios, são livros abertos para quem os saiba ler. A Escrita Hieroglífica deriva da composição de duas palavras gregas – hiero «sagrado», e glyfus «escrita», traduzindo-se livremente como “inscrição sagrada”. Apenas os sacerdotes, membros da realeza, altos cargos, e escribas conheciam a arte de ler e escrever esses sinais "sagrados". Esta escrita constitui, provavelmente, o mais antigo sistema organizado de escrita no mundo, e era vocacionada, principalmente, para inscrições formais nas paredes de templos e túmulos.

Outra civilização que utilizava a escrita hieroglífica era a civilização Maia. Além de constituir uma forma de comunicação entre os Maias, a escrita também tinha um vínculo religioso. Estes acreditavam que a escrita era um presente dos deuses e, por isso, deveria ser ensinada a uma parcela privilegiada da população. De um modo geral, utilizavam diferentes materiais para o registo de alguma informação, tais como pedras, madeira, papel e cerâmica. O sistema de escrita Maia (geralmente chamada hieroglífica por uma vaga semelhança com a escrita do antigo Egipto, com o qual não se relaciona) era uma combinação de símbolos fonéticos e ideogramas.

Outro ponto fundamental demonstrativo da importância da escrita é a história do povo Hebreu na qual os Dez Mandamentos ou o Decálogo, nome dado ao conjunto de leis que, segundo a Bíblia, teriam sido originalmente escritas por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés (as Tábuas da Lei). Foram várias as civilizações em que, ao longo da sua história, a escrita representou um papel importante no seu crescimento e principalmente como meio de ligação ao Divino.

A escrita sagrada dos Druidas – a escrita Rúnica - não se sabe exactamente como surgiu ou como foi criada; no entanto, existem registos de descobertas arqueológicas que datam de 1.300 a.C. As descobertas que mais se destacaram abrangem um período que se estende de 200 a.C até o final da Idade Média, desde a Islândia até a Roménia, do Báltico ao Mediterrâneo. Os Druidas dominavam quase todas as áreas do conhecimento humano. Cultivavam a música, a poesia, tinham notáveis conhecimentos de medicina natural, de fitoterapia, de agricultura e astronomia, e possuíam um avançado sistema filosófico muito semelhante ao dos neoplatônicos. O povo celta tinha uma tradição eminentemente oral, não fazendo uso da escrita para transmitir seus conhecimentos fundamentais, embora possuíssem a escrita Rúnica. As Runas eram identificadas como símbolos sagrados gravados ou talhados em metal, osso, pedra e couro. Mesmo não usando a escrita para gravar seus conhecimentos, eles possuíam suficiente sabedoria a ponto de influenciarem outros povos e assim marcar profundamente a literatura da época, criando uma espécie de aura de mistério e misticismo que perdura até hoje.

Também devido a esse facto as Runas - consistindo em símbolos com palavras que os denominam, e sons equivalentes – passaram a ser utilizadas para propósitos mágicos, em jeito de codificação de evocações magísticas, conhecidas apenas por alguns. As combinações alfanuméricas, devidamente utilizadas, serviam diversos trabalhos, das curas às maldições. Dentro da perspectiva mitológico/sagrada, o surgimento das Runas é atribuído à Odin, a divindade máxima do panteão nórdico. À semelhança de como muitos xamãs ainda fazem nos dias de hoje, Odin submeteu-se a uma experiência de "retorno da morte", para alcançar uma espécie de "iluminação". Este estado de transcendência (por vezes conquistado por acaso em acidentes ou doenças que conduzem o indivíduo ao um limite da sua existência), na maioria das práticas xamânicas, rituais, transes profundos, ou danças sagradas é conduzido de forma categórica. Eram utilizadas nos processos oraculares, às práticas talismânicas e à manipulação de forças naturais e sobrenaturais. São inúmeros os registos arqueológicos de Runas cravadas em armas, batentes de portas e chifres utilizados como cálices, entre tantos outros objectos, o que confirma a fé dos povos setentrionais na protecção que estes símbolos ofereciam. Lendas e testemunhos históricos dos primeiros romanos em terras nórdicas revelam o uso destes vinte e quatro símbolos, na predição do futuro e nas tentativas, nem sempre felizes, de alterá-lo.

Outro método que utiliza a escrita e os símbolos como pontos magísticos, com origem no Oriente, é o Reiki. Segundo os ensinamentos dos mestres, o Homem mantinha os seus canais de circulação de energia intactos, e os seus instintos básicos de sobrevivência de forma genuína, o que gerava um estado de felicidade e harmonia pleno. Com o desenvolvimento, fomos desligando a nossa ligação às origens e ficámos individualistas, enfraquecendo assim os canais de ligação com o Cosmo. Os símbolos do Reiki, em unificação, correspondendo aos cinco níveis da mente, permitiriam alcançar o caminho da iluminação, conhecido pelos budistas, por Nirvana. O uso original desses yantras (símbolos) não foi vocacionado originalmente para a cura material, mas para conduzir à iluminação da ajuda ao próximo. No entanto, associados esses símbolos a mantras (preces) e a mudras (na mimetização dos símbolos) foram descobertas novas potencialidades no que respeita à canalização de energia.

A “Escrita Mágica”, de um modo geral, povoou desde tempos imemoriais praticamente todas as civilizações, mais ou menos eruditas. Este facto levou também a que alguns desses símbolos perdurassem até aos dias de hoje, sendo mesmo utilizados de forma corrente...

Vitorino Camelo e Frederico Castro - A.T.U.P.O.